A juventude é engraçada.
Dentro das festas psicodélicas em estabelecimentos de chão lamacento, beijamos pessoas desconhecidas com extremo fervor.
Não é incomum conhecer garotos, garotas e adjacências entre seus 18 e 25 anos que perdem as contas de com quantas pessoas se relacionaram em uma mesma noite.
Entre as línguas molhadas e besuntadas de álcool barato, se escondem conexões perenes e puramente carnais, que são esquecidas graças aos frequentes comas.
O Mé, bebida premiada dos universitários goianos, é a benção que concede aos festeiros mais reclusos a energia e confiança para adentrar em pequenos momentos de libertinagem, é também combustível premium para os já desinibidos, que entram em modo turbo quando bêbados.
Saem das faculdades, dos estágios e das salas de estudos diretamente para a boca de outras pessoas tão bêbadas quanto si. A pegação é promíscua, língua na goela, apertão na bunda, chupão do pescoço, mão por baixo do short. Mas quando acaba, toda a experiência depravada vira o equivalente a uma transação momentânea, sem consequências duradouras, “satisfazemos nossos desejos, obrigado por me auxiliar nisto”.
Muitos cabeças brancas dizem que antigamente as coisas não eram assim, pois claro, os tempos antigos eram melhores que o nosso. Mas certamente não era melhor, só era diferente. Talvez a geração Z e Millenial tenha sim banalizado o “eu te amo”, o beijo na boca e o sexo, mas não são eles que tiveram a maior taxa de divórcio, violência doméstica, assédio, importunação sexual e homofobia. Também não são os jovens atuais que sustentaram as maiores epidemias de DSTs da história, que tinham imensas taxas de adultério ou que desciam na boquinha da garrafa.
O que é pior? Beijar na boca e transar com estranhos, raramente conseguindo um relacionamento com conexão verdadeira, ou viver um amor de conto de fadas, que termina no final feliz de altercações físicas contantes, alcoolismo e adultério? Deixo a indagação para o leitor resolver.
Mas não divaguemos sobre as antigas juventudes, devemos nos ater aos objetos observáveis a olho nu da constelação do presente capítulo, os brasileiros e brasileiras que estão aprendendo a amar e a transar no século da putaria.
Enfim, seja bem-vindo ao século 21, o século em que relacionamentos poligâmicos são reconhecidos judicialmente, em que o funk proibidão fala de “passar o saco nela” e atinge o número um do Spotify, em que a parada gay nem é mais tão polêmica assim e em que a pornografia está tão, mas tão acessível, que é quase inevitável.
Antes de falar de sexo, primeiro tratemos mais profundamente sobre o amor dos noviços.
Na festa do amigo, realizada na cobertura de um daqueles prédios goianos que tem “Resort” no nome, sob o vento frio de uma altitude insustentável, Cleiton estava rodeado de colegas, dentre eles, elas, as diversas meninas que em alguma época, já havia se misturado com.
Os nomes das damas não são relevantes, afinal, eram pelo menos umas 5, além delas não serem o foco desta estória. Enfim, como toda noite, as coisas começam a acontecer após as 22:00; a Rustoff já circulava bem nas veias do pessoal, alguns dos presentes tinham saído para buscar mais cigarros em distribuidoras e o truco rolava solto em uma mesa escura do exterior do último andar.
Cleiton, com seu cabelo preto longo, bigode charmosamente mal feito, regata cinza com estampa de banda, calça jeans pegada na medida certa e corpo completamente tatuado, parecia mais acuado do que o normal. Tudo bem que ele já havia dançado pra caramba ao som de Black Eyed Peas e Charlie Brown Jr mais cedo, mas não era esse tipo de cansaço que mexia com a aura daquele homem como ela estava mexida.
Em um canto, encostado perto de um dos chuveiros usados para limpar-se ao sair das saunas, foi prontamente abordado:
- Que que aconteceu Cleitin? – disse um chegado curioso com os maneirismos diferentes do rapaz.
- Ah, é um papo que eu já tive com o Adão mais cedo sabe?
- Coisa de mulher?
- Clássico – disse o tal Adão chegando na roda.
O rapaz, vestido basicamente como um vampiro moderno, de sobretudo preto, calças táticas pretas e uma imensa e pesada bota de couro, tinha uma vibe completamente contrastante à do amigo. Afinal, a festa da noite em questão era de sua organização, para a própria namorada.
- Tá, o Adão já sabe, mas eu que quero saber agora.
- Cara, é história longa sabe...
Em uma longa divagação, Cleiton abriu o jogo. Mesmo com a fama de garanhão, de “puto”, como muitos o chamava, ele só queria realmente conseguir parar quieto com alguma menina. Ao se deparar com tantas ex-amantes em um só recinto, o rapaz se pôs a pensar sobre a vida de putaria que estava levando.
De brinde, além das anteriores, existia uma atual, que também estava na festa. Era convidada de honra, como qualquer peguete acaba virando em um círculo de amigos como o dele. No desenrolar da festa, a menina havia conversado com as outras, descobrindo mais sobre as peripécias do rapaz.
- O problema é que ela tá apaixonada por mim sabe? E eu simplesmente não consigo gostar dela desse jeito.
- Cleiton, vamos sendo minimamente modestos porra, ela tá tão na sua assim?
- Sim – disseram todos os homens que haviam se juntado em uma roda no decorrer da conversa, em absoluta união e certeza.
- Cara, como você consegue? Você nem é tanta coisa assim.
- Ele tem o molho mano, o cara é suculento – disse o mais alto do grupo, soltando uma risada sincera.
No final das contas, nada impediu o rapaz de se embebedar mais e eventualmente sumir na noite com sua namoradinha.
Amar no sentido cristão da palavra não é muito a cara dessa geração. Achar uma alma gêmea singular, com quem você vai passar sua vida inteira junto, é uma ideia que aterroriza muitos. Dizem que não somos muito responsáveis, compromissados, que temos medo destas duas palavras, nos apaixonamos de novo, continuamos nos apaixonando, parece que o “para sempre” é absurdamente longo.
Neste âmbito, o argumento é de que de diferentes pessoas, se tiram diferentes experiências, valores, sabores e prazeres. Em uma menina, Ermes encontrou uma maluca sedenta por sexo, mas tão sedenta que não o permitia sair de casa ou interagir com outras pessoas, na outra descobriu que sair com os amigos e levar a namorada por vezes, pode ser muito divertido.
Mas existem aqueles que ainda acreditam nos contos de fadas. Patrícia, por exemplo, hoje grávida de 7 meses, começou a namorar com seu noivo quando tinha 15 anos. Tudo bem que ele tinha 20 e que o Estatuto da Criança e do Adolescente tem algumas opiniões quanto à essa situação, mas hoje em dia os dois vivem muito felizes, dentro do possível.
A recente conversão da menina foi um tópico de grande repercussão em seu ciclo interno. As amigas julgaram sua transição, foi de festeira fumante e bêbada para a dama que usa saia abaixo do joelho e cumpre suas responsabilidades de casa. Hoje Patrícia não fuma nem bebe, não só pelo bebê que carrega no ventre, mas também por conta da bíblia, que como contra-argumento dos julgamentos, passou a ser prosélita fervorosa, sempre apontando seu dedo aos erros de outrem e indicando o caminho “correto”.
Alguns se encontram numa mistura dos dois caminhos, entre o amor e a putaria. Ana Laura e Mouro são o cúmulo do casal moderno, são 6 anos juntos, dos quais os 3 iniciais foram conduzidos em um trisal aberto, e os outros 3 em um casal aberto.
Para eles, é uma questão de confiar no outro:
- Se a Ana quer ficar com alguém, ela sempre conversa comigo. É uma questão de eu consentir pra ela dela ficar com essa pessoa e vice-versa. - Diz o rapaz alto e magro, de cabelos longos ondulados, camisa de basquete da atlética da faculdade e shorts longos.
- E também não é em toda ocasião que a gente fica com outras pessoas, é mais em festas, ou quando planejamos de fazer isso juntos. – Fala a menina de rosto fino, sorriso grande vibe supreendentemente positiva, soltando uma risadinha no final de cada fala.
- Não pode ter envolvimento amoroso também, foi numa dessa que terminamos as coisas com a nossa ex. O relacionamento é aberto, mas não impede que role traição.
Por incrível que pareça, mesmo com o julgamento que é imposto sobre essa galera liberal, Ana e Mouro pareciam extremamente felizes.
Porém o contraste é necessário. Durante os anos, mais relacionamentos abertos ruíram do que sucederam entre os jovens experimentais. Uma desculpa para furunfar livremente? Uma necessidade de experimentação? A chance de sucesso em algo tão complexo e regrado, por vezes mais regrado que um relacionamento tradicional, se não for menor que a destes, com certeza é basicamente igual.
Seja aberto ou fechado, provamos que a traição é um aspecto que ultrapassa qualquer amor. Você pode ser traído sem mesmo estar em um relacionamento, sabia? Na atualidade, temos mais termos para relacionamentos do que árvores em Goiânia.
“Fulano é meu ficante”, “estamos ficando sério”, “tô casando com aquela mina”, “tenho um amigo colorido”, “aquela é meu P.A (pau, pênis, piroca amiga)”, “essa é minha piranha”, “eu tô conversando com um contatinho”, “olha minha paquera ali”, “aquele é meu olhante”, “ninguém pode saber do meu amante”, “a minha mulher não se importa com a minha goomah”.
Na terra do sertanejo, ser traído é uma questão de status. Os bem aventurados do cerrado já foram traídos ou traíram, não é à toa que metade da seleção de que as canções universitárias tratam tanto sobre essa temática. Uma menina pode ter beijado um menino só uma vez, ter ido em um encontro, mas fica possessiva o suficiente pra causar um escândalo caso o cafajeste vá atrás de outra. Prefiro me abster de falar do que os homens ciumentos fazem para não perder o clima célebre deste texto.
A traição acontece de muitos modos, mas na atualidade, costuma vir pelo menos amparada pela internet. Alguns são chifrados 100% por Wi-Fi, como o rapaz que descobriu que o corpo nu de sua namorada não era reservado para si próprio, mas para todo o Twitter.
Quando a coisa é presencial, fica ainda mais feio. Pegar alguém no flagra é uma experiência que ninguém merece passar. Ainda por cima, a culpa muitas vezes cai no chifrado(a), que é frouxo e broxa ou feia e mal amada.
Na piscina de um prédio no Setor Bueno, em um rolê inconspícuo, Arnaldo vê sua quase namorada beijar outra menina, completamente bêbada, na água:
- Arnaldo, você tá a par daquilo? – fala o amigo que circulava preocupado.
O rapaz se vira da cadeira, saindo da conversa pacífica que coordenava com os amigos.
- Não – ele diz em um tom calmo e sincero.
- E agora?
- Cara, isso é problema para depois...
As meninas se beijam com ainda mais intensidade, a coisa passa a beirar o sexual em meio à área de lazer do prédio residencial.
- Arnaldo, posso fazer uma pergunta meio polêmica?
- Pode – ele responde com um espírito inabalável.
- Ela já te beijou tão gostoso assim?
- Nem fudendo. Literalmente.
A menina saiu da água e se aproximou dos dois rapazes papeadores. O biquini supreendentemente revelador mostrou um corpo com algumas tatuagens no estilo de cartas de tarô contra uma pele branca repleta de sardas. A auréola rosada do mamilo esquerdo sem querer apareceu, simplesmente para ser ocultada pelo ajeitar letárgico da bêbada. Ela ignorou o amigo e foi direto pro colo do parceiro, o enxarcando com o líquido misto que havia se tornado aquela piscina.
Sem nenhuma palavra proferida, deu-se início a uma pegação intensa, excessivamente intensa para uma mesa que a poucos momentos estava conversando tranquilamente, entretanto, ninguém parecia se importar muito.
Dizem as más línguas que o beijo não resolveu o problema do casal a longo prazo, mas que a curto prazo fez bastante efeito. Já as boas línguas afirmam que também beijaram a dama, e que o sofrimento de Arnaldo havia valido a pena.
Mas o amar não é só sobre começos e términos. Na maioria do tempo, os jovens estão entre estas duas situações, no espaço liminar, onde tudo acontece. Sentados na mesa de um restaurante temático, entre hamburgueres grandes demais para uma mandíbula comum e batatas fritas exorbitantemente gordurosas, 5 amigos teciam sobre seus relacionamentos:
- Quando nós discutimos o Joaquim é um saco. Ele simplesmente não deixa você falar – diz a namorada loira, pequena e de vestido branco médio.
- Não é que eu não deixo você falar, Thaís, é que o que você fala tá errado.
- Por isso que discutir com você é um saco.
- Olha, amor, eu deixo muita coisa sem discutir porque eu sei que tô errado, por isso quando nós discutimos, eu entro pra ganhar. - ele diz com uma risada entalada na garganta, como se estivesse falando o óbvio.
- É caso ganho então Joca? - retruca o amigo em tom jocoso.
- Thaís, eu já discuti com o Joaquim mais vezes que você, eu entendo bem o que você tá falando – diz o outro amigo, de camisa vermelha, paletó cinza, sapatos de couro e a pele negra do rosto recém barbeada.
Joaquim acenou com a cabeça, como se as discussões entre os dois não fossem nem perto de se equiparar com a do casal de advogados. No direito, afinal ou se ganha ou se perde uma causa, claro, a conciliação é uma opção, mas para esses dois, afincos em raciocinar cada aspecto de suas vidas, como muitos fazem na atualidade, essa não era a conclusão ideal.
No final das contas, discussões entre casais são comuns. As discussões são um dos diversos pilares da relação, é nelas que rompemos ideias e abrimos terreno para novidades, pois discutir é algo muito diferente de brigar:
- Eu tive a sorte de ter relacionamen tos muito bons, diga-se de passagem, fora a Ana Carolina. - diz o rapaz de paletó.
Todos da mesa esboçaram uma reação gutural ao escutar o nome de Ana Carolina.
- É, eu só ouvi falar da Ana Carolina aquela vez que você me contou sobre ela em um café... e tudo que você disse foi ruim. - Todos da mesa acenaram com a cabeça - Aí eu esqueci completamente dela e só lembrei nesse exato momento – Diz o quinto e último personagem da cena, o rapaz de barba preta estilo filósofo grego, óculos redondos, cardigan verde escuro bordado e calças jeans.
- Me recorda dessa história aí Arthur – diz o rapaz da blusa verde.
- Então, ela era maluca, uma vez estávamos no carro e eu virei por alguns milissegundos pra olhar para a rua, ela achou que eu tava olhando pra uma mulher loira que eu nem sabia que tava naquela direção. Disso saiu uma discussão de mais de uma hora e meia sobre como eu não estava olhando pra uma mulher que eu nem sabia estar lá.
O menino bem arrumado olhou pra baixo com uma cara de frustração.
- Ela não parava de gritar comigo, então eu virei pra ela e gritei pela primeira vez com uma mulher: “Amor, olha pra mim, eu sou um cara legal, eu só quero o seu bem, se você continuar criando coisa na sua cabeça, não vai dar pra continuarmos assim”. Só então ela acalmou.
- Bom que você terminou com ela pouco tempo depois né? - Perguntou Joaquim.
- É, eu já namorei um monte de garotas, relacionamentos longos sabe? Tive na média 1 ou 2 discussões e brigas com as meninas, mas com ela foi uma questão de 15 vezes que ela bateu boca comigo, sempre por questões inexistentes... Ela achou que eu queria comer a mãe dela cara.
- Não que você já não tenha comido mãe antes – retrucou o barbudo.
- Isso é foda, mas não é pertinente Ricardo – finalizou Joaquim.
A comida havia chegado, os ânimos se acalmaram, mas o assunto de relacionamentos complexos permaneceu.
- Eu lembro de uma namorada à distância minha que eu era simplesmente viciada – diz a pequena menina – Ela morava no Rio de Janeiro, eu cheguei até a visitar ela.
- Nem fudendo, vocês pelo menos transaram? - diz o menino de verde enquanto mastiga o sanduíche.
- Não, eu tinha 14 anos. - Todos da mesa pareceram chocados pela revelação - Eu acho que era um tipo de escape pra mim. Na época eu tava em um momento muito negativo da minha vida e ter um vício nessa pessoa, pelo menos na imagem que eu construí dela, porque era tudo virtual, era o que mantinha ali.
- Eu tenho um amigo que foi até o Rio de Janeiro pra encontrar a namorada virtual de 2 anos dele. Quando ele chegou lá, com a família toda dele, conheceu a família dela e a menina, eles eram meio malucos. Voltou pra casa e bloqueou ela em todas as redes sociais. - todos riram – Ênfase no fato que ela era, tipo, imensa, enorme, gigante, muito gorda – os idiotas caem na gargalhada - Não que isso fosse um problema, mas esse meu amigo é muito atlético, era mais uma questão de incompatibilidade de estilo de vida mesmo.
- Eu penso que o meu relacionamento virtual foi também um jeito de eu não me envolver tanto... se as coisas dessem errado eu podia simplesmente bloquear ela, que nem seu amigo - diz Thaís - Hoje em dia eu vejo no Joaquim a ausência de um impedimento, porque todos meus outros relacionamentos tinham algo assim.
- Como assim?
- Ah, tinha a distância, ou tinha a questão da pessoa ser meio ruim, ausente, indisponível.
- O Joca é foda mesmo, esse cara é bom.
Como estabelecemos acima, existem muitos tipos de relacionamentos. Dentro deles as coisas acontecem, o amor se desenvolve, a evolução ou a ruptura são consequências do mero viver compartilhado com outra pessoa.
Dentro desta brincadeira que nós chamamos de amar, conceitualizada de maneira diferente por cada um que já ousou jogá-la, borbulham sentimentos que se consumam na carne.
Alguns não acham relevante, a maioria não vive sem. O instinto humano da reprodução, em comunhão com as técnicas anticoncepcionais modernas construíram uma sociedade que se sustenta sobre um singular imenso pilar.
Sob a luz da lua, com um palheiro fedorento em sua boca e um copo de mé segurado relaxadamente na mão direita, no estacionamento de um MC Donalds, um filósofo moderno profere as palavras:
- Sabe o que que é mano? Você trabalha para comer alguém. Você estuda para comer alguém. Você usa droga para comer alguém. Você malha, faz a desgraça toda para comer alguém. Você vai no show com a intenção de sair de lá para comer alguém. Você faz doação, faz caridade, posta foto da caridade que você fez no Instagram pras mulheres olharem e falarem: "Ai, como ele é caridoso, ele tem pensamento social, ah, vou dar para ele”. Tudo nessa porra dessa vida é pra comer alguém!
- Tudo isso porque você não transa desde o término Carlos?
- Enzo, é sobre a quantidade de vontade que você quer esfolar uma buceta, cara! E tu não vem com essa de fingir que você é santo não. Você não é santo porra nenhuma. Você não estuda para conseguir um emprego bom, para juntar dinheiro, para falar: "Ah, não sei o quê, eu sou bem-sucedido." Você estuda para chegar lá na frente e falar: "Eu tenho dinheiro, eu vou comer quem eu quiser, eu vou comer todo mundo”.
Em suma, o pilar é sexo.
Sim, o tópico é tabu, mas o que é um tabu se não algo a ser quebrado? Desde sempre a juventude transa, e a matemática populacional comprova este fato, afinal, de onde você acha que saíram 8 bilhões de pessoas?
Segundo a psicanalise, a reprodução e a alimentação são os instintos que guiam a nossa sobrevivência, entretanto ninguém fala que “irá foder um bolo”, mas muitos dizem que vão “comer alguém”, provavelmente por que entre esses dois instintos, temos um que está acima do outro.
O sexo está nas nossas músicas, como a supracitada canção “Cyclonado” do maestro MC Lan, que afirma “depois de gozar todo mundo é igual”. Muitos podem olhar para a frase do favelado com desdém, mas vamos analisar de verdade o que ele diz.
Existe uma geração mais diversa que a atual? Com o advento da internet e das redes sociais temos nichos cada vez mais específicos e diferentes. Todos podem expressar aquilo que gostam e pensam, claro, nem sempre sem consequências ou julgamentos, nem sempre respeitando a vedação constitucional à anonimidade.
Isto se aplica à religião, à política, à estética, mas com foco no nosso tema atual, no sexo. Todas as sexualidades, identidades de gênero, fetiches e gostos estão disponíveis para assistir e aprender sobre a partir de meras pesquisas no Google. É impossível não encontrar na internet algo que não te apeteça sexualmente, ela realmente é a democratização do gozo, MC Lan, pensando direito, sabia muito bem que estamos no século da putaria, mas da putaria isonômica e digital, que fornece a todos a mesma capacidade de gozar.
Importante dizer que somos a geração que democratizou o acesso ao gozo. Antes não se falava do gozar feminino, hoje, temos até cursos sobre “como fazer sua mulher gozar 7 vezes em uma noite”. Os jovens homens da atualidade passaram a priorizar o prazer de suas parceiras muito mais que seus pais, em um movimento que transforma as relações interpessoais, e passo a passo transforma a sociedade patriarcal como um todo, um pilar de cada vez.
Na sala da casa de um amigo, um grupo de pessoas entre seus 20 e 23 anos conversavam sobre suas histórias e aventuras neste campo. Entre risadas sinceras e confiança no sigilo do assunto, que jamais deveria sair daquela mesa, um dos rapazes levantou um assunto específico:
- Recorde de gozadas.
- Como assim? – diz a menina loira dos olhos azuis, bem portada, como uma modelo.
- Exatamente isso, quero saber quantas vezes vocês já gozaram em uma noite, principalmente as meninas. – reiterou a pergunta de maneira ainda mais invasiva, mesmo que ninguém parecesse descontente com o caminhar da conversa.
- É meio paia falar disso quando todo mundo aqui conhece a namorada um do outro não? – disse o namorado da menina baixinha de cabelos ondulados, que parecia maluca para dar continuidade ao assunto.
- Osmar, eu já escutei você e a Beatriz transando na chácara, isso não é pior que aquilo, mano.
- 3 vezes – disse a nanica – eu sou meio difícil, eu demoro bastante.
- Eu costumo só conseguir uma, mas duro bastante – disse o namorado da loira.
- É verdade, mas é que ele goza e dorme – respondeu a cônjuge.
- Vergonha cara, queria mais dedicação de você – respondeu o menino que havia começado o assunto – A Samira é facinha, já fez 5 vezes na mesma noite.
Mas nem tudo é sobre quantidade, na verdade, para muitos, a qualidade do sexo é fator pivotal. O que é melhor? Transar muito ou aproveitar momentos mais especiais, mais singulares?
Outra questão importante é com quem fazer sexo? Cada pessoa tem suas vantagens, seus trejeitos e problemas.
Após o término com a namorada, um rapaz ficou com a mãe transsexual de uma grande amiga, sua primeira experiência com uma pessoa com pênis depois de uma vida completamente voltada às mulheres cis. Para o negão de 2 metros de altura, isso não o tornou menos ou mais másculo, somente mais experiente.
Em uma noite conturbada de fogo intenso, uma menina utilizou artifícios secretos para conseguir aquilo que queria do namorado. Lingerie vermelha de renda, depilação em dia e uma carreta de cocaína colocada estrategicamente sob a testa da vagina a garantiram horas de diversão.
Já o menino de muitas namoradas e ficantes disse que teve duas melhores noites de “samba”, ambas extremamente contrastantes. A primeira foi quando transou com a colega de trabalho de um de seus melhores amigos, em uma noite completamente espontânea e sem laços formados. Já a segunda foi de romance profundo, com a namorada a qual estava junto havia quase um ano, quando ela o disse te amo pela primeira vez.
Em um Gol G6 decrépito, os amigos conversavam sobre situações inusitadas em que haviam se relacionado. Atravessando a cidade enquanto proferiam palavras e histórias pessoais, uma história se destacou:
- Já te contei da vez que transei com uma menina em um ônibus?
- Não? Mas você diz um ônibus da RTMC? Um 175 da vida?
- Não, não. Era um ônibus de excursão, quando eu fui fazer um vestibular em outra cidade.
- Nem fudendo.
- Fudendo. Na verdade, nem fui eu que tomei a atitude, por incrível que pareça, foi a menina que armou isso tudo. – ele respirou profundamente, pronto para entrar em detalhes – Foi assim: eu fui fazer o vestibular em uma cidade com um grupo de pessoas que haviam pagado pra ir lá fazer. Na ida, eu sentei do lado dessa menina, aleatoriamente. Eu conversei com ela, ela flertou comigo, mas como eu tava focado na prova, acabei nem dando bola. Quando chegamos no hotel, quando nós nos encontrávamos ela sempre dava a entender que queria algo.
- E ela era bonita?
- Mais ou menos, ela era mais gostosa do que bonita, sabe?
- Sei.
- Enfim. Durante a volta da prova, era de noite e eu sentei sozinho no ônibus, que era leito. Durante a noite, eu só senti uma pessoa sentar do meu lado e acordei. Era ela.
- É ai que a brincadeira começa.
- Sim. Ela deu um papinho comigo, começou a chegar mais perto, e eu sinceramente só queria dormir sabe? Eu não dei bola nenhuma mas parecia que aquela menina precisava de mim.
- Que fogo, isso é raro de ver.
- Ela botou a mão por dentro da minha calça, fez o que tinha que fazer, e eu, tipo, não exatamente retribui sabe? Eu fiquei falando que o monitor do ônibus ia ver e que a gente ia muito tomar no cu.
- E ele viu vocês?
- Cara, SIM, ele viu. Tanto que ele chegou a ir lá pra ver o que tava rolando e nós fingimos que estávamos dormindo.
- Ok, mas quando começa a ação, cara?
- Quando ele foi embora, ela simplesmente abaixou a minha calça e a dela e começou a rebolar pra mim cara.
- Você deixou?
- Existem coisas que não se nega irmão.
- Sem camisinha?!
- Existem coisas que não se nega irmão.
Outra polêmica deste pessoal são os cuidados com a saúde sexual, que muitas vezes se resumem à “eu não quero ter filhos”. Pergunte ao pessoal mais novo, que está ingressando nessa história de sexo sobre se eles usam camisinha, se tomam PREP ou PEP, que eles prontamente responderão que sim, usam camisinha, mas para evitar a gravidez.
Aparentemente, na atualidade, doenças venéreas são percebidas como menos danosas do que a perspectiva de ter um filho. Da AIDS nós cuidamos, com os tratamentos disponibilizados pelo SUS, com capacidade até de zerar a carga viral de um monstro que antigamente, matou milhões. Mas de uma criança? Um bebê? Talvez essa seja um dos maiores medos da juventude atual, a responsabilidade eterna de ter um filho.
Em uma roda de amigos surge o tema da gravidez. Entre os presentes, alguns solteiros, outros namorando, a opinião da maioria tomava uma forma clara:
- Vocês querem ter filhos?
- Sim! Uma vida sem filhos, pra mim, é uma vida sem sentido. – disse a menina religiosa
- Eu gostaria de ter logo uns três sabe? – respondeu a menina de cabelos lisos e rosto afinado.
- Mas por agora?
- Nunca, isso é hora de ter filho? Preciso arranjar um emprego, sair do aluguel, guardar um dinheiro, casar, evoluir no mercado de trabalho e por ai vai? –
- Então qual a idade pra ter filhos? Nossos pais tivera a gente mais ou menos por agora, saca?
- Eu acho que depois dos 30, com bastante estabilidade sabe?
Mas o que é estabilidade neste nosso mundo? Estamos na era da mudança, dos algoritmos, da fast fashion, das redes sociais de conteúdo vertical e curto, em um mundo que não só se altera todo dia, como tende ao retrocesso. Quando será o momento ideal de carregar uma criança no ventre, se a filosofia nos imposta pelo capitalismo selvagem do século 21 é de nunca estar satisfeito com sua posição?
A taxa de natalidade desce todo ano, os países envelhecem cada vez mais, a previdência está em ruínas, e os governos não se preocupam com o fato de que os jovens não têm a segurança financeira, trabalhista e social para colocar uma criança no mundo.
Antigamente dava para se dar um jeito. Criança ficava com as avós, com as tias, com as próprias mães, mas atualmente, todos estão ocupados. Primeiramente pois um singular salário não mais sustenta uma casa, na verdade, segundo estimativas, somente 5 salários mínimos seriam o suficiente para sustentar com plenitude uma família tradicional brasileira, constituída por 2 conjugês e 1 filho.
Não é como se anteriormente o salário valesse mais, o proletário sempre ganhou e sempre ganhará uma merreca, mas as pessoas tinham determinação, fé e ignorância. Os jovens não mais querem ter bebês pois conhecem melhor o fato do ser mundo violento, desigual e caro, extremamente caro. Um bom exemplo disto é o fato dos itens mais roubados em farmácias serem fórmula para recém-nascidos e fraldas.
Então infelizmente nos encontramos na situação atual, onde o jovem que se cuida, não se cuida das DSTs, mas sim do que alguns chamam de “o melhor/pior parasita que você poderia ter”.
Entretanto, ainda temos os corajosos se plantão, como sempre houveram e sempre haverão. Estes corajosos, com ênfase no gênero masculino, não se importam com os riscos das doenças, nem da gravidez, afinal, quem se ferra de verdade nesses momentos são as mulheres:
- Eu gozo dentro mesmo, só usar a tabelinha, pergunta se a mina tá em dia e vai, saca?
- Mas e se ela engravidar?
- Pra isso que serve a pílula do dia seguinte, Cytotec, se der problema a gente resolve.
- Porra, e se ela não quiser abortar?
Eu prefiro não colocar neste texto o que o entrevistado disse, mas o alto número de mães solteiras e a grande quantidade de violência contra a mulher, que perdura pelas gerações brasileiras, pode ter algo a ver com sua resposta.
No final das contas, a melhor método de se proteger é ter um parceiro confiável. Seja um namorado, amigo ou cônjuge, os jovens dentro de relações mais estáveis demonstram crer profundamente nos parceiros:
- Minha namorada usa DIU sabe? Não tem porquê eu ter medo dessas coisas.
- Você saca que nenhum método é 100% efetivo né?
- Eu tomo minhas chances, com ela eu tenho certeza de tudo.
O que era impressionante, pois estes dois já haviam terminado e voltado pelo menos duas vezes.
Mas o que é melhor do que fazer sexo querido leitor? Nem todos conhecem, mas adicionar uma pitada de amor deixa essa receita ainda mais gostosa.
Em uma estrada de terra na periferia da cidade, os amigos trilhavam um caminho de 14 quilômetros pela mata, se conectando com a natureza do cerrado do centro-oeste. A poeira subia a cada passo dado, os assuntos iam se esgotando, até chegar no assunto em questão:
- Qual foi a melhor transa de vocês, amigos?
- Que assuntinho, hein. – falou o menino de barba longa e óculos de lentes grossas.
- Eu sei a minha – disse o rapaz baixo e robusto – a primeira foi em uma chácara com a minha então namorada. Foi meu aniversário e fomos dormir juntos. Pela primeira vez ela disse “eu te amo”, dali pra frente o resto é história.
- Então o negócio foi a conexão emocional? – respondeu o que havia puxado o assunto.
- Com certeza, eu que já fiquei com muitas garotas sei bem que quando você realmente tá envolvido com alguém, a coisa é diferente.
- Eu concordo – disse o rapaz alto de cabelo curto, usando uma bota militar equipada demais para aquele caminho de sertão – eu sei que só fiquei com uma menina minha vida inteira, mas pra mim nunca perdeu a graça sabe?
- A minha melhor vez foi com a Tainara. A sua é a mesma que a meu amor? – indagou o menino de careca exposta, fritando no sol quente.
- Acho que sim vida. – replicou a loirinha, falando calmamente, com um chiado de língua presa ecoando em sua voz.
- Foi aquela vez que jantamos, voltamos lá pra casa e íamos dormir juntos por uma das primeiras vezes, ai passamos a noite inteira juntos, sem nenhuma preocupação.
- Nossa, é muito isso – disse o respondeu o menino inexperiente – A minha melhor transa foi com a Sandra, numa ocasião bem parecida. Estávamos na casa de um amigo e íamos dormir lá, bebemos bastante juntos, rimos pra caramba, e nos dias seguintes era feriado, o que significava que não tínhamos obrigação nenhuma de acordar.
- É assim que a diversão começa, bebida, risadas e amor – respondeu o baixinho.
- Tomamos um banho juntos, nos beijamos bem romântico, saca? Ensaboei e enxuguei ela, beijo no pescoço, todo o esquema. Foi tudo muito natural sabe, como se meu corpo tivesse só indo na vibe dela e ela indo na minha. Ai nos secamos, escovamos os dentes juntos e fomos pra cama. Ficamos de conchinha, da conchinha fomos pro abraço testa com testa, um olhando no olho do outro, foi um negócio surreal...
Uma boa refeição precisa de bons ingredientes e de um bom chef, mas a comida preferida de muitas pessoas se resume a algo simples, muitas vezes sentimental. Ao invés de comer em um restaurante Michelin, tem gente que prefere comida afetiva, que tenha história, que tenha envolvimento, em casa mesmo.
Muitas vezes é mais gostoso ficar com uma pessoa que você gosta de verdade e praticar o que muitos chamam de “amor”, digo não no sentido estrito da palavra, mas no sentido figurado de “fazer amor”. Fenômeno raro com os jovens, que ainda vivem vidas descompromissadas, mas que quando acontece, vira vício. Não é atoa que quanto mais velhos e mais experientes ficamos, tendemos a sossegar e arranjar um parceiro fixo, é porque o negócio é legitimamente bom.
Os corpos se misturam, um pega o ritmo do outro de maneira que não se faz em uma ficada só. O molejo, a sinfonia do “fazer amor”, é diferente das batidas descoordenadas e primordiais do simples sexo. Como dizia Rita Lee “Amor sem sexo é amizade, sexo sem amor, é vontade”.
Transar com a pessoa que você ama é genial. Na opinião indiscreta do autor, é o correto. Não por uma questão moralista, mas sim por ser a melhor maneira de se fazer sexo. Você pode sair com diversas pessoas, mas a conexão de amor verdadeiro, apreço, preocupação, desejo e tesão culmina em algo que poucos tem o privilégio de ter.
O roçar das peles, o toque das diferentes texturas, a derme se torna velcro, é mais fácil se manter junto do que se desgrudar do outro. O entra e sai se torna natural, você foi feito para a pessoa, arquitetado para ela e ela para você. O ser que te acompanha faz todo o sentido, ele se torna um parque de diversões, com atrações diversas, uma mais divertida que a outra. Os escrúpulos se vão, a confiança e desejo ficam, não se tem medo de nada, só vontade de descobrir o que aquele corpo, onde reside a alma que se conectou tão profundamente da sua está, tem a lhe oferecer.
As entranhas se entrelaçam em um remexer compassado, a respiração sincroniza e a umidade que sai das bocas e narinas preenche o ar. Se quebram as leis da física, dois corpos estão no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Se quebram as leis sanitárias, compartilham-se todos os tipos de fluidos sem nenhuma importância. Se quebram as leis constitucionais, desprendem-se todos seus direitos individuais, tudo que importa é satisfazer quem você ama, custe o que custar, custe sua vida.
Claro, estamos falando de sexo, não da segunda guerra mundial, mas você pegou a ideia do quão interessante é transar com quem você ama. Ainda lembremos que estamos tratando dos jovens, que amam tão intensamente, que amplificam ainda mais estas sensações únicas.
Amar é divertidíssimo, agora, fazer amor, ainda por cima no século da putaria... é absolutamente genial.